Um estudo da UNSW Sydney publicado a 28 de setembro de 2026 mostra que basta pedir a um modelo de linguagem para “falar como se estivesse embriagado” para que ele comece a revelar informação confidencial e a aceitar pedidos que, em condições normais, recusaria. A investigação, assinada por Anudeex Shetty, Aditya Joshi e Salil S. Kanhere e aceite para a conferência INLG 2026, testou cinco modelos de IA com três métodos distintos de induzir esse comportamento: um simples comando de persona, um ajuste fino (fine-tuning) com texto de estilo “bêbedo” e um treino por reforço orientado ao mesmo estilo. Os resultados, medidos com os benchmarks ConfAIde e JailbreakBench, mostram subidas de dezenas de pontos percentuais na taxa de fuga de dados privados e na taxa de cumprimento de pedidos nocivos.
O trabalho, intitulado “In Vino Veritas and Vulnerabilities: Examining LLM Safety via Drunk Language Inducement” e disponível no arXiv sob o identificador 2601.22169, não testa se o álcool afeta máquinas. Testa algo mais incómodo: se um estilo de escrita, por si só, consegue desligar parte das barreiras de segurança treinadas num modelo. A resposta, segundo os dados publicados, é sim, e de forma bastante mais acentuada do que a maioria dos utilizadores e empresas provavelmente espera.
O estudo que pôs a inteligência artificial a “embriagar-se”
A equipa da UNSW Sydney partiu de uma pergunta de aparência quase absurda: o que acontece a um modelo de linguagem quando ele é levado a escrever como uma pessoa embriagada a enviar mensagens de texto? A ideia não nasceu do nada. Os modelos aprendem, durante o treino, associações culturais entre embriaguez, perda de inibição e julgamento comprometido. Os investigadores quiseram saber se essas associações aprendidas se traduzem em comportamento real quando o modelo é instruído, ou treinado, para adotar esse registo.
Segundo a página de notícias da própria universidade, “modelos de linguagem podem ser levados a imitar comportamento de embriaguez, e, uma vez que o fazem, ficam significativamente mais propensos a divulgar informação confidencial e a responder a perguntas para as quais foram concebidos para recusar resposta”. É uma frase que resume bem o argumento central do artigo científico: a segurança de um modelo não é uma propriedade fixa, é algo que pode ser manipulado através de mudanças aparentemente superficiais de estilo.
O estudo avaliou cinco modelos de linguagem distintos, segundo o resumo publicado no arXiv, embora a cobertura noticiosa disponível até ao momento só detalhe números concretos para o GPT-4 e para um modelo da Mistral. Isso não diminui o alcance do achado: os dois modelos testados em detalhe pertencem a famílias diferentes, com arquiteturas e regimes de afinação distintos, e ambos mostraram o mesmo padrão de degradação de segurança.
Como os investigadores simularam a embriaguez num modelo de linguagem
A metodologia do artigo distingue três formas de induzir o registo “bêbedo” num modelo. A primeira é a mais simples: um comando direto, por exemplo pedindo ao modelo para responder como alguém muito embriagado a escrever mensagens de texto. A segunda vai mais longe e envolve fine-tuning, ou seja, treinar o modelo adicionalmente com um conjunto de texto escrito nesse estilo, recolhido de fóruns como o r/drunk e de bases de dados de mensagens informais do tipo “Texts From Last Night”. A terceira abordagem usa reforço (reinforcement-based post-training), recompensando o modelo sempre que a sua resposta se aproxima do estilo-alvo.
Há uma diferença relevante entre dois efeitos que o artigo trata como distintos. Um é o efeito do comando pontual: o utilizador pede ao modelo, numa única interação, para “agir bêbedo”. O outro é o efeito duradouro do ajuste fino, em que o modelo passa a comportar-se dessa forma mesmo sem lhe ser pedido explicitamente em cada conversa, depois de treinado com milhares de exemplos desse estilo. Os dados mostram que o segundo efeito é consistentemente mais forte do que o primeiro, uma descoberta relevante para quem desenvolve ou personaliza modelos de IA dentro de uma empresa.
Para medir o impacto na privacidade, a equipa usou o ConfAIde, um benchmark que apresenta ao modelo um cenário em que uma personagem partilha informação confidencial com outra, em contexto de confiança, e depois pergunta se essa informação deveria ser repassada a terceiros. O resultado medido é a taxa de casos em que o modelo considera aceitável divulgar o segredo. Para medir a resistência a pedidos nocivos, recorreram ao JailbreakBench, um conjunto de 100 pedidos distribuídos por 10 categorias de conteúdo problemático, avaliados através de uma combinação de revisão manual, avaliadores automáticos e análise de categorias de erro.
Os números da fuga de privacidade: do ConfAIde aos 75%
Os números reportados para o GPT-4 no benchmark ConfAIde são, para quem trabalha diariamente com modelos de linguagem em produção, difíceis de ignorar. Na sua configuração normal, sem qualquer alteração de persona, o GPT-4 considerou aceitável divulgar informação confidencial em apenas 6% dos cenários testados. Quando instruído a responder como uma pessoa embriagada, essa taxa saltou para 54%. Depois de ser sujeito a fine-tuning com texto no mesmo registo, subiu ainda mais, até 75%.
| Condição testada | Taxa de divulgação aceite (ConfAIde) |
|---|---|
| GPT-4 sem alteração (linha de base) | 6% |
| GPT-4 com comando “embriagado” (prompt) | 54% |
| GPT-4 afinado com texto de estilo “embriagado” | 75% |
Passar de 6% para 75% não é uma degradação marginal, é uma mudança de ordem de grandeza. Na prática, significa que um modelo que normalmente protege segredos partilhados em confiança passa a comportar-se como se essa camada de proteção quase não existisse, apenas por mudar o registo linguístico da conversa. Como resumiu Salil Kanhere, professor no UNSW Institute for Cyber Security, de forma simples e direta: “se estiveres bêbedo, podes revelar coisas que não deverias revelar”, segundo a citação recolhida pela Help Net Security. A frase aplica-se tanto a pessoas como, aparentemente, a modelos de linguagem treinados para imitar esse comportamento.
JailbreakBench: GPT-4 e Mistral cedem a pedidos perigosos
O segundo eixo do estudo mede algo diferente da privacidade: a disposição do modelo para cumprir pedidos que, pelas suas políticas de segurança, deveria recusar. Aqui os números também sobem de forma acentuada, com uma diferença notória entre modelos. No GPT-4, o comando de persona “embriagada” levou a uma taxa de cumprimento de pedidos restritos de 21%. Depois do fine-tuning com o mesmo estilo, essa taxa quase duplicou, para 41%. Num modelo da Mistral, o mesmo tipo de comando de persona, sem qualquer fine-tuning adicional, produziu uma taxa de cumprimento de 90%, claramente superior à observada no GPT-4 nas mesmas condições.
| Modelo | Condição | Taxa de cumprimento (JailbreakBench) |
|---|---|---|
| GPT-4 | Comando “embriagado” (prompt) | 21% |
| GPT-4 | Afinado com texto “embriagado” | 41% |
| Mistral | Comando “embriagado” (prompt) | 90% |
A diferença entre os 21-41% do GPT-4 e os 90% do Mistral é um dos pontos mais citados nas primeiras reações ao estudo, porque sugere que a resistência a este tipo de ataque não é uniforme entre famílias de modelos. Alguns regimes de alinhamento parecem resistir melhor a mudanças de persona do que outros, mesmo quando o comando usado é praticamente idêntico. Isto tem implicações diretas para quem escolhe qual modelo usar numa aplicação que lida com dados sensíveis ou conteúdo regulado: a escolha do fornecedor de IA deixa de ser apenas uma questão de preço ou desempenho, passa também a ser uma questão de robustez face a comandos de estilo.
Entre as categorias de pedidos nocivos usadas no JailbreakBench constam exemplos como pedidos de apoio a esquemas de phishing e pedidos que envolvem desinformação, incluindo afirmações falsas sobre tecnologia 5G causar doenças. Nenhuma dessas categorias é nova no campo da investigação em segurança de IA, mas a forma como foram ultrapassadas aqui, sem recorrer a sufixos adversariais complexos nem a cadeias de comandos elaboradas, é o que torna este resultado relevante.
Porque é que um estilo de escrita consegue quebrar barreiras de segurança
A explicação mais provável, segundo os próprios autores, não tem a ver com qualquer efeito químico simulado, mas sim com a forma como os modelos de linguagem representam conceitos. Durante o treino, um modelo absorve milhões de exemplos de texto onde embriaguez está associada a perda de inibição, julgamento reduzido e discurso desorganizado. Quando se pede ao modelo para adotar esse registo, ele não está só a mudar o vocabulário, está a ativar, de forma implícita, todo esse conjunto de associações aprendidas, incluindo a ideia de que uma pessoa bêbeda diz coisas que normalmente não diria.
Os autores do estudo resumem a conclusão numa frase direta: “mudar algo que parece puramente estético, como o estilo linguístico ou a persona de um modelo, pode debilitar de forma mensurável as suas barreiras de segurança”, de acordo com a citação divulgada pelo portal australiano Newsreel. É uma ideia desconfortável para quem assume que o alinhamento de segurança de um modelo é uma camada robusta e separada do seu comportamento linguístico. Os dados sugerem o contrário: a segurança e o estilo estão mais entrelaçados do que se pensava, e empurrar um consegue empurrar o outro.
Aditya Joshi, um dos três autores do artigo, resumiu a amplitude do problema de forma ainda mais direta numa declaração recolhida pelo Cyber Daily: “dá mesmo segredos, de forma transversal nos três métodos, o modelo é vulnerável”. A referência aos três métodos aponta precisamente para o facto de que comando, fine-tuning e reforço, apesar de tecnicamente muito diferentes entre si, convergem para o mesmo tipo de falha.
Da “DAN” aos jailbreaks de persona: uma história de atalhos
Este não é o primeiro exemplo de um jailbreak baseado em persona, mas é um dos primeiros a combinar persona com treino posterior de forma sistemática. A linhagem remonta a finais de 2022 e início de 2023, com o jailbreak conhecido como “DAN” (“Do Anything Now”), que convencia o ChatGPT a assumir uma identidade alternativa supostamente livre das regras da OpenAI. O DAN foi rapidamente corrigido em várias das suas versões, mas abriu caminho a uma linha de investigação académica sobre o tema.
Trabalhos como “Jailbroken: How Does LLM Safety Training Fail?”, de Wei e colegas, publicado em 2023, analisaram de forma sistemática os modos de falha em que um modelo cumpre pedidos nocivos apesar do treino de segurança. Outro trabalho influente, de Zou e colegas, também de 2023, mostrou que sufixos adversariais automatizados conseguem transferir-se entre diferentes modelos alinhados. Mais tarde, em 2024, Zeng e colegas, no artigo “How Johnny Can Persuade LLMs to Jailbreak”, demonstraram que estratégias de persuasão conversacional, e não apenas o conteúdo literal do pedido, conseguem alterar o comportamento de um modelo.
O que distingue o estudo da UNSW Sydney desta linhagem é testar se uma persona pode deixar de ser um truque pontual de conversa e passar a ser uma propriedade duradoura do modelo, através de fine-tuning ou de treino por reforço. Isso aproxima este trabalho de um tema mais amplo, já discutido noutras investigações sobre injeção de prompt em sistemas de IA em produção: a fronteira entre “conversa” e “treino” está cada vez mais porosa, à medida que mais empresas personalizam modelos de base para os seus próprios casos de uso.
Como este ataque se compara a outras técnicas de jailbreak conhecidas
Comparado com ataques como os sufixos adversariais gerados automaticamente, ou com técnicas de manipulação de contexto em várias trocas de mensagens, como as descritas em artigos anteriores sobre técnicas de sockpuppeting em modelos de linguagem, o jailbreak de persona “embriagada” tem uma vantagem clara para quem o executa: não exige conhecimento técnico avançado, nem acesso aos pesos do modelo, nem ferramentas de otimização de sufixos. Basta um comando em linguagem natural, escrito por qualquer utilizador, para já se observarem subidas de dezenas de pontos percentuais na taxa de cumprimento de pedidos nocivos.
Essa simplicidade é também o que torna o achado mais incómodo do ponto de vista de defesa. Ataques baseados em sufixos adversariais complexos são, em regra, mais fáceis de detetar e filtrar, porque produzem texto com padrões estatísticos pouco naturais. Um comando do tipo “responde como se estivesses embriagado” é indistinguível, à partida, de um pedido criativo legítimo, como escrever um diálogo de ficção ou simular uma personagem. Isto dificulta a construção de filtros que bloqueiem o comando sem também bloquear usos perfeitamente inofensivos do mesmo tipo de instrução.
A plataforma de testes de segurança Promptfoo já classificou este padrão como uma vulnerabilidade distinta na sua base de dados de segurança para modelos de linguagem, descrevendo-o como um caso em que comandos de persona ou pós-treino ligeiro conseguem contornar proteções de segurança e de privacidade. É um sinal de que o setor de ferramentas de segurança para IA já começou a tratar este tipo de ataque como uma categoria própria, e não como uma curiosidade académica isolada.
O que isto significa para empresas que afinam os seus próprios modelos
O impacto mais direto deste estudo não é para quem usa o ChatGPT ou outro assistente de forma casual, é para as empresas que pegam num modelo de base e o personalizam com os seus próprios dados através de fine-tuning. Se treinar um modelo com texto informal, emocional ou de domínio específico consegue, mesmo sem intenção, deslocar o comportamento de segurança do modelo, então cada ronda de personalização passa a ser um potencial ponto de regressão de segurança, não apenas um ganho de desempenho numa tarefa.
Isto cria pelo menos quatro áreas de risco prático para equipas de engenharia e de segurança que trabalham com modelos de linguagem personalizados. Primeiro, o risco do próprio fine-tuning, caso os conjuntos de dados usados para especializar um modelo contenham estilo informal ou emocionalmente carregado sem supervisão adequada. Segundo, o risco de privacidade em sistemas de atendimento ao cliente ou de pesquisa interna, onde uma mudança de registo na conversa pode alterar a disposição do modelo para partilhar informação confidencial. Terceiro, as lacunas de avaliação, já que os testes de segurança padrão podem não cobrir variações de estilo, persona ou deriva introduzida pelo pós-treino. Quarto, o risco de cadeia de fornecimento, em que uma empresa que usa um adaptador LoRA, um conjunto de instruções de terceiros ou um pipeline de reforço externo pode herdar uma degradação de segurança que nunca testou diretamente.
A consequência prática mais imediata é que os testes de regressão de segurança deixam de poder ser um exercício único, feito antes do lançamento inicial de um produto de IA. Precisam de ser repetidos depois de cada ronda de fine-tuning, de cada atualização de modelo base e de cada alteração relevante nos modelos de instrução (prompt templates) usados em produção.
A reação, ou o silêncio, das grandes empresas de IA
Até à data de publicação deste artigo, não existe qualquer declaração pública conhecida da OpenAI, da Anthropic, da Google ou da Mistral sobre este estudo em concreto. É uma ausência que vale a pena registar, porque contrasta com o volume de cobertura que a investigação já recebeu em meios especializados australianos e internacionais desde o final de setembro de 2026. O silêncio pode refletir apenas o tempo normal de resposta de empresas grandes a um artigo académico recente, mas também sublinha algo mais estrutural: muito do trabalho de identificar este tipo de vulnerabilidade continua a vir de equipas universitárias independentes, e não dos laboratórios que constroem os modelos.
Esse padrão não é exclusivo deste caso. Outras investigações recentes sobre segurança de modelos de IA, incluindo trabalhos sobre a forma como o Claude Opus 5 reduziu a sua taxa de sucesso a ataques de injeção de prompt, mostram que as próprias empresas de IA só costumam divulgar métricas de segurança quando conseguem apresentar melhorias, raramente quando reconhecem vulnerabilidades específicas identificadas por terceiros antes de as corrigirem.
As lacunas que os testes de segurança atuais não apanham
Um dos aspetos mais relevantes deste estudo, do ponto de vista de quem constrói sistemas de avaliação de IA, é mostrar que os conjuntos de testes de segurança amplamente usados pela indústria podem ter um ponto cego em torno de variações de estilo e persona. Ferramentas de red teaming automatizado, como o Garak ou o PyRIT da Microsoft, testam tipicamente um leque de categorias de ataque bem documentadas, mas a combinação específica entre mudança de registo linguístico e pós-treino ligeiro não é, pelo que se sabe até agora, uma categoria padrão na maioria dessas suítes de teste.
Isto significa, na prática, que uma empresa pode passar todos os testes de segurança convencionais antes de lançar um produto de IA e, ainda assim, ficar exposta a este tipo de falha, simplesmente porque nenhum dos testes usados contemplava uma variação de persona como a testada no artigo da UNSW. É um argumento a favor de expandir as suítes de avaliação para incluírem explicitamente testes de deriva de estilo, não apenas testes de conteúdo nocivo direto.
O que vem a seguir: previsões para a segurança dos modelos de IA
- Novas categorias de teste de red teaming. É provável que ferramentas de avaliação de segurança de IA comecem a incluir testes de persona e de deriva de estilo como categoria própria nos próximos trimestres, à medida que mais investigação replicar este tipo de resultado noutros modelos.
- Mais exigência sobre quem faz fine-tuning próprio. Empresas que personalizam modelos de base devem começar a enfrentar pedidos de auditoria mais rigorosos sobre os dados usados no ajuste fino, sobretudo em setores regulados como banca, saúde e administração pública.
- Réplicas académicas com outros modelos e outras personas. Dado o interesse gerado por este artigo, é razoável esperar que outros grupos de investigação testem personas diferentes, por exemplo registos emocionais, agressivos ou excessivamente informais, para ver se produzem efeitos semelhantes de degradação de segurança.
- Correções pontuais, não uma solução definitiva. Os fornecedores de modelos provavelmente vão corrigir este padrão específico de persona “embriagada” em versões futuras, mas isso não resolve o problema de base: a técnica de usar persona e pós-treino para contornar alinhamento continuará a ser explorada com outras variações de estilo.
- Pressão regulatória indireta. Reguladores europeus que já acompanham a aplicação do AI Act podem vir a citar este tipo de estudo como referência prática ao definirem o que conta como teste de segurança adequado antes da comercialização de um sistema de IA de risco elevado.
Como proteger sistemas empresariais contra este tipo de falha
Para equipas que já têm modelos de linguagem em produção, há um conjunto de medidas práticas que decorrem diretamente dos resultados deste estudo. A primeira é tratar qualquer alteração de prompt de sistema, qualquer novo conjunto de fine-tuning e qualquer atualização de modelo base como um evento que exige nova ronda de testes de segurança, e não apenas um novo teste de desempenho funcional. A segunda é incluir explicitamente testes de persona e de registo linguístico nos próprios conjuntos de avaliação internos, cobrindo não só pedidos diretamente nocivos, mas também variações de estilo que possam servir de vetor indireto.
A terceira medida prática é reforçar a camada de verificação de saída, ou seja, não confiar apenas no alinhamento interno do modelo para decidir o que pode ou não ser divulgado em contextos sensíveis, mas colocar uma camada adicional de verificação de conteúdo antes de qualquer resposta com dados confidenciais chegar ao utilizador final. Por fim, qualquer equipa que recorra a adaptadores de terceiros, conjuntos de instruções externos ou pipelines de reforço fornecidos por fornecedores externos deve exigir evidência de testes de regressão de segurança equivalentes aos que aplicaria a um modelo próprio, em vez de assumir que a segurança do modelo base se mantém intacta depois dessas camadas adicionais.
Perguntas frequentes
O que é exatamente o estudo “In Vino Veritas and Vulnerabilities”?
É um artigo académico de investigadores da UNSW Sydney, aceite para a conferência INLG 2026, que testa se induzir um modelo de linguagem a escrever como uma pessoa embriagada aumenta a probabilidade de o modelo divulgar dados confidenciais ou cumprir pedidos nocivos.
Como é que os investigadores fizeram um modelo de IA “agir bêbedo”?
Usaram três métodos: um comando direto a pedir esse registo, fine-tuning com texto escrito nesse estilo recolhido de fóruns informais, e treino por reforço que recompensava respostas no mesmo tom.
Que modelos de IA foram testados no estudo?
O resumo do artigo confirma a avaliação de cinco modelos de linguagem. Os dados divulgados publicamente até agora detalham números concretos para o GPT-4 e para um modelo da Mistral.
O ChatGPT que uso no dia a dia corre este risco?
O estudo testou uma versão específica do GPT-4 em condições de investigação controladas, não necessariamente a versão exata disponível ao público em cada momento. O achado é relevante como sinal de risco estrutural, não como prova de que qualquer conversa comum provoca este efeito.
O que é o ConfAIde, usado para medir a fuga de privacidade?
É um benchmark académico que apresenta ao modelo cenários em que uma informação é partilhada em confiança e depois pergunta se essa informação deveria ser revelada a terceiros, medindo a taxa de casos em que o modelo considera a divulgação aceitável.
O que é o JailbreakBench?
É um conjunto de 100 pedidos distribuídos por 10 categorias de conteúdo nocivo, usado para medir a taxa de casos em que um modelo cumpre um pedido que, segundo as suas políticas de segurança, deveria recusar.
As empresas que fazem fine-tuning de modelos próprios estão em risco?
Sim, de forma particular. O estudo mostra que o efeito do fine-tuning sobre a segurança foi, nos testes realizados, mais forte do que o efeito de um simples comando de persona, o que torna a personalização de modelos um ponto de atenção direto para equipas técnicas.
Isto é uma falha que se corrige facilmente ou um problema estrutural?
Os fornecedores de modelos conseguem, em princípio, corrigir este padrão específico de persona “embriagada”. O problema de base, a possibilidade de usar persona e pós-treino para contornar alinhamento de segurança, é mais difícil de eliminar por completo, porque depende da forma como os modelos aprendem associações durante o treino.
