A Valve fechou a beta e entregou. No dia 1 de setembro de 2026, o cliente estável do Steam passou a suportar streaming em HDR no Remote Play para o Steam Deck OLED, quase três anos depois de a consola portátil ter chegado às lojas com um ecrã OLED capaz de mostrar alto alcance dinâmico. Até essa data, o painel ficava parado a meio gás sempre que o utilizador jogava por streaming: o sinal chegava sempre em SDR, mesmo que o jogo estivesse a correr em HDR no computador de origem.

A atualização não vem sozinha. Junto com o suporte a HDR, a Valve confirmou também a chegada do codec AV1 ao streaming via cliente experimental SteamRT3, além de melhorias no intervalo de cor em todas as plataformas e da possibilidade de trocar de conta com um jogo em execução. São mudanças técnicas, mas com peso comercial: a Valve está a fechar uma das poucas vantagens que ainda separava o Remote Play oficial de soluções como o Moonlight, o Sunshine ou o GeForce Now.

O que mudou no cliente Steam a 1 de setembro

As notas de lançamento do cliente estável, publicadas na página oficial de notícias do Steam Deck, resumem-se a três linhas, mas cada uma delas resolve uma queixa antiga da comunidade. A primeira e mais visível: suporte a streaming HDR quando se usa o Remote Play a partir de um Steam Deck OLED, segundo o comunicado oficial da página de notícias do Steam Deck. A segunda: correção do intervalo de cor no vídeo em todas as plataformas de destino, uma alteração que ataca diretamente as queixas de imagens “lavadas” ou com cores cortadas durante sessões de streaming. A terceira: os utilizadores já podem trocar de conta Steam sem sair de um jogo em execução, uma funcionalidade menor mas pedida há anos por quem partilha o mesmo computador entre vários perfis.

O portal TuxMachines confirmou que estas três alterações formam o núcleo do cliente estável lançado a 1 de setembro, depois de meses a circular apenas no canal beta. Para quem acompanha o Steam Deck de perto, a mudança de canal é o verdadeiro sinal de maturidade: a Valve só costuma promover uma funcionalidade a estável quando considera que já foi suficientemente testada por quem se voluntaria para os canais experimentais.

Da beta de julho ao lançamento estável: a cronologia

A história desta funcionalidade começou seis semanas antes. A 29 e 30 de julho de 2026, a Valve distribuiu uma beta do cliente Steam que introduzia, pela primeira vez, streaming HDR dedicado ao Deck OLED e suporte experimental ao codec AV1 através do cliente SteamRT3. O site especializado GamingOnLinux foi um dos primeiros a documentar as notas dessa beta, que já mencionavam a melhoria do intervalo de cor “em todas as plataformas”.

Julho: a funcionalidade entra em beta

Nas primeiras semanas, o acesso estava limitado a quem tinha entrado voluntariamente no canal beta do cliente Steam e no ramo experimental SteamRT3, uma variante do runtime do SteamOS pensada para testar funcionalidades ainda não estabilizadas. A imprensa especializada em Linux e handhelds, incluindo o SteamDeckHQ, descreveu a novidade como a correção de uma lacuna incómoda: um ecrã OLED com capacidade HDR que, em Remote Play, nunca tinha recebido um sinal HDR real.

Setembro: HDR sai da beta e chega a todos os utilizadores

Passadas cerca de cinco semanas de testes, a Valve promoveu o suporte a HDR e a melhoria de cor para o canal estável, tornando a funcionalidade acessível a qualquer pessoa com um Deck OLED atualizado, sem necessidade de se inscrever em programas beta. O suporte a AV1 continua marcado como experimental e associado ao cliente SteamRT3, o que sugere que a Valve ainda quer recolher mais dados de compatibilidade antes de o generalizar.

Como funciona o streaming HDR no Remote Play

O princípio é simples de descrever, mesmo que a engenharia por trás não seja trivial. Um computador com Windows, capaz de correr um jogo em HDR e com uma placa gráfica que suporte codificação por hardware, transmite o sinal para o Deck OLED sem o converter previamente para SDR. Até agora, o Steam fazia sempre essa conversão antes de enviar o vídeo, o que apagava o alcance dinâmico do jogo mesmo quando tanto a origem como o destino eram capazes de o mostrar.

Para ativar a funcionalidade, o utilizador precisa de ligar o HDR no próprio sistema, em Definições → Ecrã → HDR, uma opção que só aparece no modelo OLED com SteamOS 3.8 ou superior. Do lado do cliente que recebe o stream, existe agora uma opção de “ativar streaming HDR” nas definições avançadas do Remote Play, além de um menu para forçar o AV1 como codec preferencial. Sem estes dois passos, o sistema continua a cair para SDR por omissão, mesmo em hardware compatível.

AV1 entra em cena: o codec que reforça o H.264 e o HEVC

O Remote Play sempre dependeu do H.264 e, mais recentemente, do HEVC (H.265) para comprimir o vídeo em tempo real. O AV1, desenvolvido pela Alliance for Open Media e já usado por serviços como o YouTube e a Netflix, junta-se agora a essa lista, mas apenas através do cliente experimental SteamRT3 e apenas em hardware com codificação AV1 por hardware, normalmente placas gráficas NVIDIA, AMD ou Intel lançadas nos últimos anos.

A vantagem do AV1 é conhecida da indústria de compressão de vídeo: para uma qualidade percebida semelhante, o codec costuma exigir um bitrate significativamente mais baixo do que o H.264, o que interessa especialmente a quem faz streaming em redes domésticas com largura de banda limitada ou em ligações Wi-Fi mais instáveis. Ainda assim, a Valve mantém o suporte a AV1 rotulado como experimental, o que indica que a equipa quer mais tempo de testes antes de o tornar a opção predefinida para todos os utilizadores do Remote Play.

Requisitos técnicos: SteamOS 3.8, hardware e ativação

A lista de requisitos é mais restrita do que o anúncio pode sugerir à primeira vista. O streaming HDR está, para já, limitado ao Steam Deck OLED com SteamOS 3.8 ou versão posterior, o que deixa de fora tanto o Deck LCD original como qualquer unidade que ainda não tenha atualizado o sistema operativo. Do lado do computador de origem, é preciso HDR ativo ao nível do sistema operativo (normalmente Windows), uma placa gráfica capaz de codificar HDR em tempo real e, para tirar partido do AV1, um encoder de hardware compatível com esse codec.

  • Consola de destino: Steam Deck OLED com SteamOS 3.8 ou superior (o modelo LCD original fica de fora)
  • HDR ativado manualmente em Definições → Ecrã → HDR no Deck OLED
  • Computador de origem com saída HDR funcional e placa gráfica com codificação por hardware
  • AV1 como opção experimental, disponível apenas através do cliente SteamRT3 e de GPU com encoder AV1
  • Cliente Steam atualizado para a versão estável de 1 de setembro de 2026 ou posterior

Steam Deck OLED contra Deck LCD: só um modelo fica bem servido

A decisão de restringir o HDR ao modelo OLED não é surpreendente do ponto de vista técnico, já que o painel LCD do Deck original nunca foi certificado para alto alcance dinâmico e não tem o contraste necessário para o exibir de forma credível. Ainda assim, a escolha reforça uma divisão que a Valve já vinha desenhando desde o lançamento do Deck OLED, em novembro de 2023: quem comprou a variante mais cara ganha, com o tempo, um conjunto crescente de vantagens de software que o modelo mais barato nunca vai receber.

Para quem ainda usa um Deck LCD, o Remote Play continua a funcionar normalmente, incluindo com as melhorias de intervalo de cor anunciadas para “todas as plataformas”. O que não vai mudar é a ausência de um sinal HDR real, uma vez que o próprio ecrã do dispositivo não tem capacidade para o mostrar. Na prática, este anúncio confirma que o Deck OLED deixou de ser apenas um Deck com ecrã melhor e passou a ser a plataforma de referência para onde a Valve direciona as novidades de streaming e reprodução de vídeo.

O historial do Remote Play: de SDR fixo a HDR real

O Remote Play nasceu como uma ferramenta pensada sobretudo para transmitir jogos de um PC para outro dispositivo dentro da mesma rede doméstica, sempre em SDR. A primeira abertura ao HDR surgiu em maio de 2024, quando a Valve adicionou suporte a streaming HDR-para-HDR entre computadores Windows com aceleração de hardware NVIDIA ou AMD e outro PC ou Mac com ecrã HDR, segundo discussões na comunidade oficial do Steam. Mesmo assim, essa melhoria ficou limitada ao universo PC-para-PC.

O Deck OLED chegou às lojas poucos meses antes dessa atualização, com um ecrã tecnicamente capaz de mostrar HDR, mas sem qualquer forma de o receber via Remote Play. Durante quase três anos, quem queria jogar em HDR remotamente no seu Deck OLED tinha de recorrer a soluções de terceiros, como o Moonlight associado ao Sunshine, em vez do software oficial da própria Valve. A atualização de setembro de 2026 fecha essa lacuna específica, embora continue a não estar claro se o HDR se estende a outros clientes do Steam Link, como os que correm em televisões e monitores externos.

Como o Steam se compara à concorrência em streaming HDR

A Valve não é pioneira nesta corrida, é mais uma concorrente a apanhar o comboio. O Xbox Cloud Gaming já suporta HDR em muitos títulos, dependendo da app e do dispositivo usado para jogar, uma capacidade que antecede em vários anos o anúncio da Valve. A NVIDIA também já anuncia streaming em 4K com HDR nos planos superiores do GeForce Now, aproveitando o codec HEVC em ecrãs compatíveis. Do lado da Sony, o cenário é o inverso: o Remote Play oficial da PlayStation continua, na generalidade dos casos, limitado a SDR, mesmo quando a PS5 de origem está a correr o jogo em HDR, uma limitação que se repete no cliente não oficial Chiaki, construído sobre o mesmo protocolo da Sony.

O Moonlight, associado ao servidor Sunshine, é o principal motivo pelo qual muitos utilizadores de Deck OLED nem sentiram falta do HDR oficial da Valve até agora: a dupla de software livre, construída sobre a base do antigo NVIDIA GameStream, já permitia streaming HDR de qualidade elevada, com HEVC ou AV1 conforme o hardware, muito antes de o Steam oferecer algo parecido. É precisamente essa comunidade de utilizadores avançados, habituada a configurar manualmente bitrates e codecs, que tende a notar primeiro se a implementação da Valve consegue igualar a experiência que já tinha fora do ecossistema oficial.

ServiçoStreaming HDRCodecs suportadosAlcance
Steam Remote PlaySim, desde 1 set. 2026 (Deck OLED)H.264, HEVC, AV1 (experimental)Rede local e internet, PC/Mac/Deck OLED
Xbox Cloud GamingSim, em títulos e apps compatíveisH.264/HEVC (variável por dispositivo)Cloud, telemóveis, TVs, PC
PlayStation Remote PlayNão, predominantemente SDRH.264Rede local e internet, PS5/PC/telemóvel
GeForce Now (planos topo)Sim, em resoluções 4KHEVCCloud, ecrãs compatíveis com HDR
Moonlight + SunshineSim, desde antes de 2026H.264, HEVC, AV1 (conforme GPU)Rede local e internet, self-hosted
Chiaki (cliente PS Remote Play)Não, replica o protocolo da SonyH.264Rede local e internet

Reação da imprensa e da comunidade

A cobertura da beta, em julho, foi quase unanimemente positiva. O The Verge descreveu a novidade como a chegada de “HDR e AV1 no streaming Remote Play para o Steam Deck”, numa peça publicada no mesmo dia da distribuição da beta, disponível em theverge.com. Sites focados em Linux e hardware portátil, como o GamingOnLinux e o SteamDeckHQ, sublinharam sobretudo a correção do intervalo de cor, uma alteração menos vistosa do que o HDR mas que resolvia queixas antigas sobre imagem “lavada” durante o streaming.

Nos meios franceses e alemães, a leitura foi semelhante: publicações como a Clubic e a GinjFo descreveram o momento como a Valve a “ativar finalmente” o HDR num ecrã que já o suportava há quase três anos, um enquadramento que captura bem o sentimento geral da comunidade. O site gamerant.com, por seu turno, notou que a funcionalidade chegou primeiro em beta exclusiva ao modelo OLED, com uma implementação mais ampla “provavelmente” a seguir mais tarde, embora a Valve não tenha, até à data, confirmado planos de expansão a outros dispositivos, segundo o artigo publicado em gamerant.com.

Nos fóruns e comunidades de Steam Deck, a reação combinou entusiasmo com um certo ceticismo técnico. Utilizadores mais experientes, habituados a afinar manualmente as suas configurações de Moonlight e Sunshine, mostraram-se sobretudo interessados em comparar a qualidade de imagem e a latência da implementação oficial da Valve com as soluções que já usavam, numa espécie de teste informal cujos resultados só o uso continuado ao longo das próximas semanas vai poder confirmar.

Impacto no mercado de handhelds e no streaming de jogos

Esta não é uma atualização isolada. Chega numa altura em que o mercado de portáteis de jogos está mais competitivo do que nunca, com a Lenovo, a ASUS e a MSI a lançar handhelds cada vez mais caros e potentes, e com a própria Valve a preparar-se para lançar a Steam Machine, a sua consola de secretária. Num mercado assim, funcionalidades de software como o HDR no Remote Play deixam de ser um detalhe técnico e passam a ser um argumento de venda, sobretudo para quem hesita entre comprar um Deck OLED ou um concorrente com especificações superiores mas sem o mesmo ecossistema de software.

Para a Valve, reforçar o Remote Play tem ainda outra vantagem estratégica: quanto melhor for a experiência de jogar por streaming a partir de um PC potente, menos os utilizadores do Deck sentem falta de processadores mais rápidos dentro do próprio dispositivo. É uma forma de prolongar a vida útil percebida do hardware sem obrigar ninguém a comprar uma nova geração, algo particularmente relevante numa altura em que os preços de memória RAM e armazenamento têm empurrado o custo de novos handhelds para cima em toda a indústria.

Cronologia completa da funcionalidade

DataMarcoCanal
Nov. 2023Lançamento do Steam Deck OLED, com ecrã capaz de HDR mas sem suporte a HDR no Remote PlayEstável
Maio 2024Steam adiciona streaming HDR-para-HDR entre PCs e Macs (fora do Deck)Estável
29-30 jul. 2026Beta introduz HDR para Deck OLED, AV1 experimental via SteamRT3 e melhor intervalo de corBeta
1 set. 2026HDR no Remote Play e melhoria de cor passam ao canal estável; troca de conta com jogo abertoEstável
Após set. 2026AV1 permanece experimental, dependente do cliente SteamRT3 e de GPU compatívelExperimental

O que esperar a seguir: previsões para o Remote Play da Valve

Com base no ritmo desta atualização e no histórico recente da Valve, há algumas direções prováveis para os próximos meses. Primeiro, é razoável esperar que o suporte a AV1 saia do estado experimental durante 2027, à medida que mais utilizadores testarem a funcionalidade em hardware variado e a Valve recolher dados suficientes para a considerar estável. Segundo, a empresa deverá alargar o streaming HDR a outros clientes do Steam Link, incluindo aplicações para televisões e monitores externos, uma vez que a limitação atual ao Deck OLED parece mais uma questão de prioridade de testes do que de impossibilidade técnica.

Terceiro, com a Steam Machine da Valve a caminho do mercado como consola de secretária, faz sentido que o HDR e o AV1 se tornem parte do argumento de venda desse novo hardware, sobretudo em conjugação com o Remote Play para jogar noutras divisões da casa. Quarto, a pressão competitiva de serviços como o GeForce Now e o Xbox Cloud Gaming deve continuar a empurrar a Valve para melhorias de qualidade de imagem e latência, num mercado onde a diferença entre soluções já não se mede apenas pelo preço do hardware. Quinto, é provável que vejamos a Valve documentar de forma mais detalhada os requisitos de largura de banda e as recomendações de bitrate para HDR, algo que as notas de lançamento atuais ainda não especificam com precisão.

Perguntas frequentes

O que é o streaming HDR no Remote Play do Steam?

É a capacidade de transmitir um jogo de um computador para outro dispositivo, como o Steam Deck OLED, preservando o alcance dinâmico HDR original, em vez de o converter para SDR antes do envio, como acontecia até 1 de setembro de 2026.

O Steam Deck LCD também recebe HDR no Remote Play?

Não. A funcionalidade está limitada ao Steam Deck OLED, porque é o único modelo com um ecrã fisicamente capaz de mostrar HDR. O Deck LCD continua a receber o streaming sempre em SDR.

Que versão do SteamOS é preciso ter?

É necessário SteamOS 3.8 ou uma versão posterior no Steam Deck OLED, além do cliente Steam atualizado no computador de origem para a versão estável lançada a 1 de setembro de 2026.

O AV1 já está disponível para todos?

Não. O suporte a AV1 continua marcado como experimental e só está acessível através do cliente SteamRT3, além de exigir uma placa gráfica com codificação AV1 por hardware no computador que faz o streaming.

Como ativo o HDR no Remote Play do meu Deck OLED?

É preciso ativar o HDR em Definições → Ecrã → HDR no Steam Deck OLED e, no cliente que faz o streaming, ligar a opção de streaming HDR nas definições avançadas do Remote Play, além de garantir HDR funcional no computador de origem.

Esta atualização também melhora o Remote Play em televisões e monitores?

As notas oficiais mencionam melhorias no intervalo de cor “em todas as plataformas”, mas o suporte explícito a HDR foi anunciado apenas para o Steam Deck OLED. A Valve não confirmou, até à data, uma expansão formal a clientes de TV ou monitor.

O Steam Remote Play com HDR é melhor do que o Moonlight ou o Sunshine?

Ainda não há testes independentes suficientes para responder com segurança. O Moonlight associado ao Sunshine já oferecia streaming HDR de qualidade elevada antes desta atualização da Valve, pelo que a comparação direta em qualidade de imagem e latência só deve ficar mais clara com o uso continuado ao longo das próximas semanas.

Esta atualização tem relação com o lançamento da Steam Machine?

Não existe confirmação oficial de ligação direta entre as duas iniciativas, mas melhorar a qualidade do Remote Play encaixa na estratégia mais ampla da Valve de tornar o streaming de jogos dentro de casa uma alternativa credível à compra de hardware mais potente, um argumento que ganha ainda mais relevância com a chegada da Steam Machine como consola de secretária.