A Valve acabou de dar um passo que muda a forma como a Steam vai correr em hardware que não é x86. Em meados de setembro de 2026, a empresa revelou duas novas camadas de compatibilidade dentro do SteamOS: o FEX, que traduz instruções de processadores x86 para arquitetura ARM, e o Lepton, que permite correr ficheiros APK do Android diretamente dentro do sistema operativo da Valve. As duas peças nasceram por uma razão concreta: o Steam Frame, o novo headset de realidade virtual da Valve, usa um processador Qualcomm Snapdragon 8 Gen 3, um chip ARM, não o x86 a que o catálogo da Steam está habituado há mais de duas décadas.
O anúncio passou relativamente discreto fora dos círculos de desenvolvimento Linux, mas o alcance é maior do que parece. Pela primeira vez, a Valve está a construir, de forma pública e documentada, uma via para que o catálogo inteiro da Steam corra em processadores ARM, e para que jogos feitos originalmente para Android cheguem à Steam sem passar por uma portabilidade tradicional. Isto acontece enquanto o Steam Deck e o Steam Machine continuam presos ao x86, e enquanto a concorrência em headsets standalone, liderada pelo Meta Quest, continua a depender quase exclusivamente de Android.
FEX e Lepton: as duas peças que faltavam no SteamOS
Durante anos, a peça central da estratégia Linux da Valve chamou-se Proton. Construído sobre o projeto Wine, o Proton traduz chamadas da API do Windows para que jogos feitos para esse sistema corram em Linux, incluindo tradução de DirectX. Funcionou tão bem que se tornou a base do Steam Deck e, depois, do Steam Machine. Mas o Proton resolve apenas um problema: Windows sobre Linux. Não resolve a diferença entre conjuntos de instruções de processador.
É aqui que entra o FEX, segundo o detalhe publicado pela Ars Technica a 16 de setembro. O FEX é a integração da Valve do projeto open source FEX-Emu e serve para traduzir, em tempo real, instruções de processador x86 e x86-64 para instruções ARM64. Sem esta camada, nenhum jogo compilado para x86 conseguiria arrancar num chip Snapdragon, por mais que o Proton já tivesse feito a parte de traduzir o Windows para Linux.
O Lepton resolve um problema diferente. É uma camada de compatibilidade baseada em contentores, derivada do projeto Waydroid, que corre ficheiros APK padrão do Android dentro do SteamOS. A Valve abriu o código do Lepton a 21 de setembro, segundo reportou o site húngaro LAVX. A lógica é simples: uma parte enorme dos jogos feitos para realidade virtual standalone nasceu em Android, para headsets como o Meta Quest. Sem o Lepton, cada um desses jogos precisaria de um porte dedicado para chegar à Steam. Com ele, muitos podem correr praticamente tal como estão.
Como o FEX traduz jogos x86 para processadores ARM
Na prática, o FEX funciona como um intérprete constante entre dois mundos. Quando um jogo do catálogo Steam foi compilado para x86, cada instrução que o processador teria de executar é convertida, no momento, para o equivalente em ARM64. Isto não é gratuito: qualquer camada de tradução introduz uma perda de desempenho, e o Snapdragon 8 Gen 3 do Steam Frame já não é o chip mais potente do mercado móvel em 2026, apesar de continuar a ser competente para jogos leves e médios.
Um relatório do fórum técnico Windows Forum, publicado a 24 de setembro, resume bem a cadeia: um jogo Windows passa primeiro pelo Proton, que traduz as chamadas do sistema, e só depois pelo FEX, que traduz as instruções de processador. É uma dupla tradução, o que explica porque nem todos os jogos compatíveis com Steam Deck vão correr automaticamente no Steam Frame. O ideal, do ponto de vista de desempenho, seria ter binários nativos ARM64, algo que a própria comunidade técnica já aponta como o caminho de longo prazo, à semelhança do que a Apple fez com o Rosetta 2 e do que a Microsoft fez com o Windows on Arm.
Lepton: a Android dentro do Linux da Valve
Para os estúdios, o Lepton muda o processo de distribuição. Segundo a documentação da Steamworks citada pelo LAVX, um estúdio que queira publicar um jogo Android na Steam precisa de marcar o Android como sistema operativo suportado, criar um depósito (depot) dedicado a essa versão, colocar o ficheiro APK na raiz desse depósito, juntar os dados OBB quando existem, e configurar o APK como o executável de arranque. Não há necessidade de recompilar o jogo para Linux nativo, nem de o portar para Windows.
Isto abre a porta a um género que a Valve nunca teve verdadeiramente na Steam: jogos de realidade virtual standalone feitos primeiro, ou apenas, para Android. Até aqui, quem quisesse jogar esses títulos precisava de um Meta Quest ou de outro headset com Android. Com o Lepton, esses jogos podem, em teoria, chegar à loja da Steam e correr no Steam Frame sem que o estúdio tenha de manter duas versões separadas do mesmo produto.
Steam Frame: o motivo real desta mudança de arquitetura
O Steam Frame não é um capricho de engenharia. É o primeiro dispositivo da Valve construído sobre ARM, e isso obrigou a empresa a resolver, de uma vez, problemas que o Steam Deck e o Steam Machine nunca tiveram. As reservas do Steam Frame abriram a 14 de setembro por 1.059 dólares, com o Snapdragon 8 Gen 3 e 16 GB de memória LPDDR5X, segundo confirmaram a UploadVR e a Thurrott. Este site já tinha detalhado a crise de memória que empurrou o preço do dispositivo para cima. O que muda agora é a arquitetura de software que o torna, de facto, utilizável.
No lançamento, mais de 100 jogos já estavam classificados como “Standalone Verified” para o Steam Frame, um número separado e muito menor do que o total de jogos certificados para o Steam Deck. É uma diferença importante: o selo Verified do Steam Frame testa especificamente a combinação de Proton, FEX e, quando aplicável, Lepton, correndo localmente no chip ARM, e não o desempenho por streaming a partir de um PC.
A pilha completa: Proton, FEX e Lepton lado a lado
Para entender por que a Valve precisou de três camadas em vez de uma, ajuda visualizar o caminho que cada tipo de jogo percorre até correr no Steam Frame:
Jogo Windows x86 -> Proton (API Windows->Linux) -> FEX (x86->ARM64) -> Snapdragon 8 Gen 3
Jogo Android APK -> Lepton (contentor tipo Waydroid) -> Snapdragon 8 Gen 3
Jogo Linux nativo ARM64 -> corre direto, sem camadas de tradução
Cada camada resolve uma lacuna diferente. O Proton continua a ser essencial para qualquer jogo Windows, seja em x86 ou, no futuro, em ARM. O FEX só entra quando o binário do jogo foi compilado para x86, isto é, quase todo o catálogo atual da Steam. O Lepton só entra para conteúdo distribuído como APK Android. Um jogo Linux já compilado nativamente para ARM64 dispensa toda a tradução, e é essa a direção que a própria Valve reconhece como o objetivo final: mais jogos nativos ARM, menos dependência de camadas intermédias.
Steam Deck e Steam Machine ficam de fora, por agora
Vale sublinhar o que não muda com este anúncio. O Steam Deck corre num APU AMD x86-64, pelo que continua a depender do Proton, sem qualquer necessidade do FEX. O Steam Machine, anunciado antes do Frame, também assenta em x86-64, e continua a comportar-se como um PC Linux convencional em termos de compatibilidade. Nenhum dos dois precisa de traduzir instruções de processador, porque já falam a mesma língua de processador que a maioria dos jogos da Steam.
Numa entrevista à Tom’s Hardware, publicada a 14 de setembro, um responsável da Valve explicou que o trabalho feito para o Steam Deck e o Steam Machine acabou por se cruzar com o esforço de pôr o SteamOS a correr em ARM para o Steam Frame, sublinhando que, apesar das diferenças de processador, continua a ser fundamentalmente o mesmo sistema operativo por trás dos três dispositivos. Isso é o que torna o SteamOS um caso raro na indústria: um único sistema, com um ramo otimizado para ARM64 dedicado ao Frame, mas partilhando a mesma base de código com os dispositivos x86.
Os números do lançamento: preço, memória e jogos certificados
Colocar os três dispositivos lado a lado ajuda a perceber por que razão apenas um deles precisou destas novas camadas de tradução.
| Dispositivo | Processador | Arquitetura | Memória | Precisa de FEX | Precisa de Lepton |
|---|---|---|---|---|---|
| Steam Deck | APU AMD | x86-64 | 16 GB (LCD/OLED) | Não | Não |
| Steam Machine | Chip AMD (x86) | x86-64 | Variável por modelo | Não | Não |
| Steam Frame | Qualcomm Snapdragon 8 Gen 3 | ARM64 | 16 GB LPDDR5X | Sim | Sim (jogos Android) |
O preço de reserva do Steam Frame, 1.059 dólares, já reflete o impacto da crise global de memória sobre chips móveis de alto desempenho, um tema que este site já tinha detalhado antes. O número de jogos “Standalone Verified” no lançamento, mais de 100, é reduzido quando comparado às dezenas de milhares de títulos jogáveis no Steam Deck, mas serve como primeiro sinal de que a combinação Proton mais FEX, e nalguns casos Lepton, já produz resultados jogáveis fora do laboratório.
De Wine a Lepton: uma década a tornar o Linux compatível
Nada disto surgiu do zero. O Proton assenta sobre o Wine, um projeto de compatibilidade Windows-Linux que existe há décadas e que a Valve empacotou com componentes próprios, como tradução de DirectX e integração com o Steam Runtime. O Steam Deck, lançado anos antes do Frame, foi o que transformou o Proton de curiosidade técnica em ferramenta usada por milhões de jogadores todos os dias.
| Camada | Função | Marco recente |
|---|---|---|
| Wine | Compatibilidade da API Windows em sistemas Unix-like | Base histórica do Proton |
| Proton | Windows sobre Linux, com foco em jogos | Proton 11.0 chegou ao canal estável em agosto de 2026 |
| FEX | Tradução de instruções x86/x86-64 para ARM64 | Integrado no ramo ARM do SteamOS para o Steam Frame |
| Lepton | Execução de APK Android dentro do SteamOS | Código aberto pela Valve a 21 de setembro de 2026 |
O detalhe do Proton 11.0 a chegar ao canal estável em agosto de 2026, compilado já para ARM64, mostra que a Valve não improvisou o Steam Frame de última hora. A base de compatibilidade para ARM estava a ser preparada há pelo menos um ano antes de o headset chegar às reservas.
Comparação com a concorrência: Android, Meta Quest e GeForce NOW
O Steam Frame entra num espaço já ocupado. Os headsets standalone de realidade virtual, com o Meta Quest à frente, funcionam sobre Android e dependem de processadores Qualcomm da mesma família Snapdragon. A vantagem que a Valve tenta construir não está no hardware, que é comparável, mas na integração: contas Steam, biblioteca Steam, atualizações Steam e suporte a controlos Steam, tudo dentro de um dispositivo que também consegue correr Android via Lepton.
Há ainda uma segunda frente competitiva, esta ligada à computação em nuvem. Serviços como o GeForce NOW resolvem o problema de hardware limitado através de streaming, correndo o jogo num servidor remoto e enviando apenas o vídeo. O Steam Frame segue outro caminho: pode transmitir jogos de um PC ou do Steam Deck, mas o foco do FEX e do Lepton é fazer correr software localmente, no próprio dispositivo, sem depender de ligação a um servidor. São filosofias diferentes para o mesmo problema, o de levar um catálogo pesado para hardware mais limitado.
O que muda para os estúdios que publicam na Steam
Para os estúdios, o cálculo muda de forma prática. Um jogo Android já lançado para o Meta Quest pode, em teoria, chegar à Steam com trabalho de adaptação bastante menor do que um porte tradicional, graças ao Lepton. Um jogo Windows que já use Proton no Steam Deck ganha uma nova plataforma potencial, o Steam Frame, mas o estúdio precisa de testar o desempenho depois da tradução dupla via FEX, porque nem todos os motores de jogo reagem da mesma forma a essa camada extra.
Isto cria um incentivo de médio prazo para compilar versões nativas ARM64, algo que já acontece com alguns projetos de comunidade. Segundo reportado pelo site NeoTeo, entusiastas já experimentam SteamOS em dispositivos ARM fora da linha oficial da Valve, usando distribuições como o RockNix combinadas com versões beta do Proton 11 e com o próprio FEX, um sinal de que o interesse em correr Steam fora do x86 já ultrapassa os produtos da própria Valve.
Impacto no mercado: crise de memória e o custo do hardware ARM
O momento do anúncio não é neutro. O mercado de memória para chips móveis de alto desempenho está sob pressão, e essa pressão já empurrou o preço de reserva do Steam Frame para cima dos 1.000 dólares. Construir compatibilidade de software robusta para ARM é também uma forma de proteger o investimento: se o hardware fica mais caro por causa de componentes escassos, a Valve precisa de garantir que o dispositivo tem biblioteca suficiente para justificar o preço aos primeiros compradores.
Do lado dos fabricantes de chips, a aposta da Valve em Snapdragon reforça a posição da Qualcomm em dispositivos de jogo, um mercado que até aqui era dominado por AMD e Intel em x86. Se o Steam Frame vender bem, é razoável esperar que outros fabricantes de handhelds explorem combinações semelhantes de ARM mais camadas de tradução, replicando o mesmo caminho que a Valve abriu.
Porque a Valve aposta em ARM agora, e não há cinco anos
A resposta tem tanto de técnico como de mercado. Só recentemente os chips ARM de topo, como o Snapdragon 8 Gen 3, atingiram desempenho suficiente para suportar uma camada de tradução como o FEX sem tornar os jogos injogáveis. Ao mesmo tempo, o consumo energético de chips ARM continua muito abaixo do de um APU x86 equivalente, uma vantagem decisiva num headset de realidade virtual, onde a bateria e o calor pesam mais do que num PC de mesa ou até num Steam Deck.
Também pesa o exemplo de outras empresas. O Windows on Arm da Microsoft e o Rosetta 2 da Apple já mostraram, em mercados diferentes, que uma camada de tradução bem construída pode sustentar uma transição de arquitetura sem perder a maior parte do catálogo de software existente. A Valve está a aplicar a mesma lógica aos jogos, com a vantagem de já ter o Proton pronto desde a era do Steam Deck.
Previsões para os próximos 12 meses
- O número de jogos com selo “Standalone Verified” no Steam Frame deve crescer de forma constante, à medida que mais estúdios testam a combinação Proton mais FEX depois do lançamento.
- É provável que surjam os primeiros jogos com binários nativos ARM64, publicados diretamente para evitar a perda de desempenho da tradução dupla.
- O Lepton, por ser open source, deve atrair experimentação fora do Steam Frame, incluindo em handhelds ARM de outros fabricantes, à semelhança do que já acontece com projetos de comunidade como o RockNix.
- Se as vendas do Steam Frame corresponderem às expectativas da Valve, torna-se mais plausível a hipótese de um futuro dispositivo portátil da linha Steam Deck também mudar para ARM, embora a Valve não tenha confirmado esse plano.
- A pressão sobre o preço da memória deve continuar a influenciar o custo de novos dispositivos ARM de jogo ao longo de 2027, afetando tanto a Valve como potenciais concorrentes.
Os limites técnicos que a Valve ainda não resolveu
Nem tudo funciona sem custos. A tradução dupla, Proton mais FEX, consome ciclos de processador que, num chip móvel como o Snapdragon 8 Gen 3, já são mais limitados do que num APU de um Steam Deck ou de um PC. Isto significa que jogos exigentes, feitos para correr bem em x86 nativo, podem perder frames ou qualidade visual quando traduzidos para ARM em tempo real, mesmo com o FEX otimizado.
Também não existe, até à data, uma percentagem oficial e verificada de quantos jogos do catálogo total da Steam já correm de forma satisfatória no Steam Frame através desta pilha de compatibilidade. O número de mais de 100 títulos “Standalone Verified” no lançamento é real, mas é uma fração pequena face às dezenas de milhares de jogos disponíveis na loja. A Valve vai precisar de tempo, e de mais testes por parte de estúdios e da comunidade, para expandir essa lista de forma significativa.
Perguntas Frequentes
O que é o FEX no SteamOS?
É a camada de compatibilidade que traduz instruções de processadores x86 e x86-64 para ARM64 em tempo real, permitindo que jogos compilados para PC corram em chips ARM como o Snapdragon 8 Gen 3 do Steam Frame.
O que é o Lepton?
É uma camada de compatibilidade baseada em contentores, derivada do projeto Waydroid, que permite correr ficheiros APK do Android dentro do SteamOS, sem precisar de recompilar o jogo para Linux.
O Steam Deck vai precisar do FEX?
Não. O Steam Deck usa um APU AMD x86-64, a mesma arquitetura da maioria dos jogos da Steam, por isso continua a depender apenas do Proton, sem necessidade de traduzir instruções de processador.
O Steam Machine também usa FEX ou Lepton?
Não. O Steam Machine é igualmente x86-64, pelo que se comporta como um PC Linux convencional em termos de compatibilidade, sem depender destas duas novas camadas.
Quantos jogos já funcionam no Steam Frame?
Mais de 100 jogos receberam o selo “Standalone Verified” no lançamento, um número específico para execução local no dispositivo, distinto e menor do que o total de jogos certificados para o Steam Deck.
O Lepton é código aberto?
Sim. A Valve abriu o código do Lepton a 21 de setembro de 2026, o que permite que outros projetos, incluindo experiências de comunidade em handhelds ARM não oficiais, explorem a mesma tecnologia.
Estas camadas afetam o desempenho dos jogos?
Sim. Qualquer tradução de instruções ou de API introduz sobrecarga. No caso do FEX, um jogo Windows precisa de passar por Proton e por FEX antes de chegar ao processador ARM, o que pode reduzir o desempenho face a um binário nativo ARM64.
Isto significa que a Valve vai mudar o Steam Deck para ARM?
Não há confirmação da Valve nesse sentido. O que existe é uma base tecnológica, agora testada no Steam Frame, que tornaria essa transição tecnicamente possível caso a empresa decida avançar num futuro dispositivo.




