Pela primeira vez em nove anos, a Unity deixou de ser o motor mais usado na Game Jam GMTK, o maior evento de criação rápida de jogos do mundo. Na edição de 2026, a Godot ficou com 47% das submissões, contra 34% da Unity, segundo dados divulgados pela Game Maker’s Toolkit e recolhidos pelo Game World Observer.
O resultado não surge do nada. É a consequência de três anos de desconfiança acumulada desde que a Unity anunciou, em 2023, uma taxa por instalação que a indústria nunca esqueceu. Para estúdios portugueses e europeus que decidem hoje que motor aprender ou adotar, os números da GMTK 2026 mudam o cálculo.
O fim de um reinado de nove anos
A Game Jam GMTK acontece todos os anos em julho e reúne milhares de programadores independentes que têm 48 horas para criar um jogo do zero. Desde a primeira edição relevante em termos de dados, a Unity liderava sempre a escolha de motor. Essa série terminou em 2026. Segundo o levantamento citado pelo Game Developer, a Godot foi escolhida em 47% das entradas, o equivalente a cerca de 4.900 jogos submetidos.
A Unity ficou em segundo lugar, com 34% e perto de 3.600 jogos. GameMaker somou 5% (498 jogos), a Unreal Engine 3% (319 jogos) e a categoria “outros motores” recolheu os restantes 11%. A diferença de 13 pontos percentuais entre Godot e Unity é a maior já registada no evento e fecha um ciclo que começou a mudar de direção em 2023.
A escalada da Godot, ano a ano
Os dados históricos da Game Maker’s Toolkit mostram uma subida quase ininterrupta desde 2022. Nesse ano, a Godot tinha apenas 16% das submissões da Game Jam GMTK. Em 2023, subiu para 19%, um avanço modesto que refletia ainda um motor de nicho. O salto grande aconteceu em 2024, logo a seguir ao anúncio da polémica taxa da Unity, quando a Godot passou para 37%. Em 2025 consolidou a posição com 39% e, em 2026, ultrapassou finalmente a Unity com 47%.
| Ano | Godot | Unity | Nota |
|---|---|---|---|
| 2022 | 16% | Líder | Godot ainda era motor de nicho |
| 2023 | 19% | Líder | Mês do anúncio da runtime fee (setembro) |
| 2024 | 37% | 2º lugar | Primeiro salto grande pós-polémica |
| 2025 | 39% | 2º lugar | Crescimento consolida-se |
| 2026 | 47% | 34% (2º lugar) | Godot ultrapassa a Unity pela 1ª vez |
Em quatro anos, a Godot ganhou 31 pontos percentuais de share na Game Jam GMTK. Nenhum outro motor teve uma trajetória parecida no mesmo período.
A “runtime fee” de 2023 e o efeito bumerangue
Para perceber o presente é preciso voltar a setembro de 2023. A Unity Technologies anunciou nessa altura uma taxa cobrada por cada instalação de um jogo a partir de certos limiares de receita e downloads. A reação da comunidade foi imediata e hostil. Estúdios pequenos e médios viram na medida um risco financeiro incalculável, já que o número de instalações não é algo que um criador controla com precisão.
A Unity acabou por recuar parcialmente semanas depois, mas o dano na confiança já estava feito. Muitos programadores começaram nessa altura a testar alternativas, e a Godot, por ser gratuita e de código aberto, tornou-se o destino mais óbvio. Os números da Game Jam GMTK mostram exatamente esse ponto de viragem: o salto de 19% para 37% aconteceu entre 2023 e 2024, o ano seguinte ao anúncio.
Godot 4.7.1 chega em força
O crescimento de adoção coincide com um ciclo de lançamentos mais rápido do motor. A versão 4.7.1 da Godot foi lançada a 14 de julho de 2026, poucas semanas antes da Game Jam GMTK, e chegou com correções de estabilidade e melhorias no editor que a equipa destacou como prioridade para a experiência de criadores independentes. À data da Game Jam, o motor tinha pouco mais de cinco semanas nessa versão, e ainda assim já era a escolha maioritária dos participantes.
# Verificar a versão instalada da Godot
godot --version
# Saída esperada em agosto de 2026:
# 4.7.1.stable.official
Este ritmo de atualização contrasta com o de motores concorrentes, que tendem a espaçar mais os lançamentos maiores devido à complexidade de testar compatibilidade em milhares de projetos comerciais ativos.
Crescimento na Steam: de 618 para 2.864 jogos
O sinal não vem só das game jams. Dados da SteamDB citados pelo Ziva mostram que o número de jogos feitos em Godot lançados na Steam passou de 618 títulos no período 2023-24 para 1.500 em 2024-25, e chegou a 2.864 em 2025-26. Ou seja, o volume praticamente duplicou em cada um dos últimos dois ciclos anuais.
Esse crescimento traduz-se, segundo a mesma fonte, numa fatia de 8 a 10% de todos os lançamentos novos na Steam, longe ainda da posição da Unity, mas uma subida clara face aos cerca de 3% que a Godot representava no início de 2024.
Godot vs Unity vs Unreal Engine: comparação direta
A tabela seguinte resume o estado dos três principais motores em agosto de 2026, cruzando licenciamento, share na Game Jam GMTK 2026 e presença comercial na Steam.
| Motor | Licença / custo | Versão atual | Share GMTK 2026 | Share comercial Steam |
|---|---|---|---|---|
| Godot | MIT, grátis, sem taxa por receita | 4.7.1 | 47% | 8-10% dos lançamentos novos |
| Unity | Subscrição paga acima de certos limiares | 6.4 | 34% | Cerca de 51% dos lançamentos (dados de 2024) |
| Unreal Engine | Royalty de 5% acima de $1 milhão em receita | 5.8 | 3% | Minoritário fora de jogos AAA |
| GameMaker | Subscrição paga | Atual | 5% | Nicho, sobretudo jogos 2D |
A vantagem estrutural da Godot está na licença MIT: sem custo por assento, sem partilha de receita e sem taxa por instalação. É uma diferença impossível de replicar pela Unity ou pela Epic Games sem mudarem o modelo de negócio por completo.
O GitHub confirma a tendência: 115 mil estrelas
Os números de adoção têm um espelho direto no GitHub. O repositório da Godot ultrapassou as 95.000 estrelas no início de 2026 e chegou às 115.000 em julho, segundo dados recolhidos pelo Ziva. O crescimento não é linear no tempo: nas 48 horas seguintes ao anúncio da taxa da Unity, em setembro de 2023, o projeto somou tantas estrelas novas quanto tinha somado em todo o ano anterior.
Esse detalhe importa porque mostra que o interesse pela Godot não cresceu de forma gradual e previsível. Cresceu aos saltos, sempre coincidindo com momentos em que a concorrência cometeu um erro de comunicação ou de política de preços. É um padrão que se repete noutros mercados de software: a fuga em massa raramente é motivada só pela qualidade do produto alternativo, é motivada pela desconfiança súbita no produto dominante.
Do lado do financiamento, a Godot Foundation funciona de forma diferente da generalidade dos motores comerciais. Não há investidores de capital de risco nem acionistas a exigir retorno trimestral. O projeto vive de donativos de estúdios, empresas de tecnologia e programadores individuais, geridos através do Godot Development Fund. Em dezembro de 2024, a fundação ultrapassou os 100 mil euros em donativos pontuais num único ano, e a produtora de Terraria, a Re-Logic, doou 100 mil dólares em 2023, pouco depois da polémica da Unity. Esse dinheiro paga a programadores contratados a tempo parcial ou inteiro, hardware de desenvolvimento e presença em eventos da indústria.
A Unity ainda manda no mercado comercial
Convém não exagerar o alcance da mudança. Apesar de perder a liderança numa game jam de referência, a Unity continua a dominar o mercado comercial de jogos lançados na Steam, com uma fatia próxima dos 51% em dados de 2024. A base instalada de estúdios que já construíram pipelines inteiros em Unity, com anos de código, plugins e conhecimento acumulado, não muda de motor da noite para o dia.
O que os números da GMTK 2026 mostram é antes uma mudança geracional: entre os criadores que estão a começar agora, sobretudo em projetos pequenos e jams, a escolha por defeito deixou de ser automaticamente a Unity.
O caso Slay the Spire 2
Um dos exemplos mais citados na comunidade é o de Slay the Spire 2. Depois de o primeiro jogo ter sido construído em Unity, a equipa de desenvolvimento optou pela Godot para o projeto seguinte, aproveitando a leveza do motor para acelerar o ciclo de iteração. Casos assim, vindos de equipas com histórico comercial comprovado e não apenas de programadores amadores em jams, dão à Godot um tipo de validação que os números sozinhos não conseguem.
A diferença entre este tipo de migração e a que acontece numa game jam é o risco. Uma equipa de jam perde, no máximo, 48 horas de trabalho se o motor escolhido não corresponder às expectativas. Uma equipa que já lançou um jogo comercial de sucesso e decide reconstruir o próximo título noutro motor está a apostar meses de trabalho e a reputação da marca. Quando esse tipo de aposta corre bem e chega a público, o efeito de demonstração para o resto da indústria pesa mais do que qualquer estatística de adoção isolada.
Porque é que os criadores estão a mudar
Segundo o levantamento do Game Developer junto de programadores que já usam a Godot, 12% dos inquiridos indicam o motor como escolha principal, um crescimento de 8 pontos percentuais face ao ano anterior. As razões apontadas repetem-se: tempo de arranque rápido, editor mais leve em máquinas modestas e um ciclo de iteração mais curto entre alterar código e ver o resultado no ecrã.
Nenhuma dessas vantagens é nova, mas o peso delas aumenta quando a alternativa envolve risco financeiro. Depois de 2023, custo deixou de ser um detalhe secundário na escolha de motor e passou a ser critério de topo, à frente até de funcionalidades gráficas avançadas.
Impacto no mercado de trabalho e nos estúdios
A mudança de share tem consequências práticas para quem contrata. Estúdios europeus mais pequenos, incluindo em Portugal, tendem a operar com orçamentos apertados e equipas reduzidas, exatamente o perfil que mais beneficia de um motor sem custos de licenciamento variáveis. Uma equipa de três ou quatro pessoas a lançar o primeiro jogo comercial não quer, hoje, gerir a incerteza de uma taxa ligada a instalações que pode disparar se o jogo tiver sucesso viral.
Do lado da contratação, começa a notar-se procura por competências em GDScript, a linguagem própria da Godot, ao lado de C# para Unity e C++ para Unreal Engine. Escolas e cursos de programação de jogos em Portugal já incluem a Godot nos currículos, algo que há três anos era raro fora de comunidades de entusiastas.
Há ainda um efeito indireto sobre editoras e distribuidoras. Quando um estúdio negoceia financiamento ou um contrato de publicação, o motor escolhido entra cada vez mais na conversa sobre risco financeiro do projeto. Um jogo construído sobre uma base sem custos variáveis de licenciamento é, do ponto de vista de quem investe, um projeto com uma variável de incerteza a menos. Editoras mais pequenas, habituadas a orçamentos entre 200 mil e 2 milhões de euros por título, tendem a valorizar essa previsibilidade tanto quanto valorizam o género ou a equipa criativa por trás do jogo.
Contexto histórico: de motor de nicho a alternativa séria
A Godot nasceu como projeto brasileiro de código aberto, lançado publicamente em 2014, sem nunca ter tido o marketing agressivo da Unity ou da Epic Games por trás. Durante quase uma década, viveu à margem do debate sobre motores relevantes para lançamentos comerciais, associada sobretudo a projetos académicos e jogos experimentais.
A viragem começou a desenhar-se com a saga da runtime fee em 2023, mas só ganhou tração real com o trabalho contínuo da equipa da Godot Foundation em estabilidade, documentação e suporte a exportação para múltiplas plataformas. O resultado de 2026 não é um acidente de um único ano: é a soma de três anos de trabalho técnico coincidente com um erro estratégico de um concorrente.
O que esperar até 2027
- A Godot deve continuar a ganhar share em jams e projetos indie, mas dificilmente ultrapassa a Unity no volume total de lançamentos comerciais na Steam antes de 2028.
- A Unity vai continuar a defender preço e políticas de licenciamento para travar a fuga de estúdios pequenos, depois de já ter recuado uma vez na polémica de 2023.
- Mais estúdios de média dimensão devem anunciar migrações públicas, seguindo o exemplo de Slay the Spire 2, o que reforça a perceção de validação comercial da Godot.
- A oferta de formação em GDScript deve crescer em escolas técnicas europeias, incluindo Portugal, à medida que empregadores passam a listar Godot como competência procurada.
- A Unreal Engine deve manter-se forte apenas no segmento AAA, onde os recursos gráficos avançados pesam mais do que o custo de royalties.
O que fica por confirmar
Nem tudo neste ciclo está garantido. O share da Godot em game jams reflete sobretudo a escolha de programadores individuais e equipas pequenas, um universo diferente do dos estúdios que já dependem de pipelines Unity ou Unreal Engine há anos. Os dados de 2026 confirmam uma tendência clara entre novos criadores, mas ainda não respondem à pergunta maior: quantos desses projetos pequenos vão crescer até se tornarem lançamentos comerciais relevantes, e quantos ficam apenas como protótipos de jam.
Perguntas Frequentes
A Godot é mesmo grátis?
Sim. A Godot usa licença MIT, sem custo de aquisição, sem taxa por assento e sem partilha de receita, independentemente de quanto o jogo vender.
A Godot ultrapassou a Unity em todos os mercados?
Não. A Unity continua a liderar o volume total de jogos comerciais lançados na Steam, com cerca de 51% de share em dados de 2024. A Godot lidera apenas na Game Jam GMTK 2026 e está a crescer na fatia de novos lançamentos.
O que foi a polémica da runtime fee da Unity?
Em setembro de 2023, a Unity anunciou uma taxa cobrada por instalação de jogos acima de certos limiares de receita e downloads. A reação negativa da comunidade levou a um recuo parcial semanas depois, mas acelerou a fuga de programadores para alternativas como a Godot.
Que linguagem se usa na Godot?
A linguagem própria é o GDScript, com sintaxe próxima de Python, mas o motor também suporta C# e, por via de extensões, C++.
Qual é a versão mais recente da Godot?
A versão 4.7.1, lançada a 14 de julho de 2026, é a atual à data desta análise.
A Unreal Engine está a perder terreno também?
Na Game Jam GMTK 2026 sim, com apenas 3% de share. Mas a Unreal Engine mantém posição forte no segmento de jogos AAA, onde os recursos gráficos avançados pesam mais na decisão do que o modelo de royalties.
Vale a pena um estúdio pequeno migrar de Unity para Godot agora?
Depende do estado do projeto. Para um jogo já avançado em Unity, a migração tem custo técnico real. Para um projeto novo, sobretudo com orçamento apertado, a ausência de taxas variáveis da Godot é um argumento forte a favor.
A Godot serve para jogos 3D ou só 2D?
Serve para ambos. O motor tem motor de renderização 3D próprio desde a versão 4, embora a maior parte da adoção continue concentrada em jogos 2D e projetos de menor escala gráfica.
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